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Estamos no ano da alfabetização e há alguns meses vou para a reunião na escola pra saber que minha filha não está aprendendo conforme o esperado. Eu ia usar erroneamente o termo “não está acompanhando a turma”, no entanto na reunião pedagógica a professora deixou claro que por trabalharem com o construtivismo não existe comparação com a classe. Cada criança chega com uma bagagem e o professor é um mediador, estimulando a construção do pensamento. A avaliação é sobre o processo de ensino-aprendizagem, e não só aprendizagem.

Eles tem um cuidado em não comparar uma criança com a outra, pois eles são avaliados individualmente. Existem pequenas “metas” ou expectativas ao longo do ano, mas o principal objetivo é chegar ao final do ano letivo (aos 7 anos dela) sabendo ler e escrever.

A primeira reunião individual

A primeira conversa foi 1 mês antes de terminar o primeiro trimestre. Nesse dia a professora me falou que estava dando uma atenção especial a ela e alguns colegas, para que quando chegasse a sondagem “oficial” ela estivesse melhor e atingisse o que na nossa época chamávamos de “média”.

Lá eles não tem nota no primeiro ano pois pelo método construtivista há uma transição mais lenta e cuidadosa para o ensino fundamental e por isso a avaliação é feita por “faixas” que vão de 1 a 5, onde 1 e 2 representam o “não suficiente”.

Pediu que estimulássemos em casa com jogos e de uma forma lúdica, sem sobrecarregá-la.

A primeira reunião trimestral

Na primeira reunião, uma boa notícia: ela se recuperou um pouco e fechou com faixa 3.

Brincamos um pouco, comprei jogos com letras e brinquedos de banho também com letras no início do ano.

Atividades nas férias

No final do primeiro semestre a professora perguntou se queríamos que ela mandasse algumas atividades semelhantes às que ela fazia em aula, para serem feitas em casa, aos poucos, para que a pausa de 1 mês não a prejudicasse. Eu quis, e ela me entrou um envelope cheio de atividades.

Não foi como eu gostaria. No bilhete de introdução havia um alerta que não deveria ser feito tudo de uma vez, era apenas para manter a rotina e a “cabecinha” funcionando.

Falhei um pouco nessa “rotina”. Tive compromissos, viagens, e nem sempre ela estava disposta a fazer. Sei que as férias foram acabando e tivemos que nos forçar a fazer mais de uma atividade por dia pata consegui entregar a maioria feita. E mesmo assim, entregamos algumas “além do prazo”.

Segunda reunião trimestral

Houve uma evolução na escrita e na sondagem, no entanto, uma piora no comportamento. Como os alunos são avaliados em todas as esferas (matemática, português, socialização, informática, ciências da natureza, etc), apesar da melhora, continuou na faixa 3. Ela começou a ficar nervosa, facilmente “perde a esportiva” quando é contrariada, acha que só ela manda e define as regras do jogo. Difícil.

Eu já comentei no instagram, que depois que ela completou 6 anos, eu recorri ao post escrito pela psicóloga Lilian Britto sobre o perfil de comportamento esperado para cada idade, e ela parece que vive esses 6 anos bem intensamente.

Bom, só tenho uma certeza: toda mãe sempre acha que podia ter feito mais.

Tentei incentivar na brincadeira, mas a rotina, o trabalho, a falta de foco não me deixaram ter a frequência que deveria. E quando percebi não estávamos fazendo mais nada para ajudar em casa.

Comecei mais uma vez a rotina de brincadeiras, estímulos, mas nem sempre era da vontade dela.

Vai tentar ou vai desistir?

Depois da segunda avaliação eu falei novamente com ela, dessa vez ainda mais séria: se você não estudar, não aprender as letras, os seus amigos vão para o 2º ano e você vai estudar de novo o Primeiro com a turma do infantil 4.!

“Ahhh mas eu não gosto, eu odeio”….. “ok, é sua escolha. Ou você aprende ou vai ficar pra trás.”

Falei isso 1, 2, 3x. Meu marido repetiu!

O dia que virou a chave

Até que um dia ela se ofereceu pra fazer a lista do supermercado. Engraçado que foi exatamente uma das dicas da professora. E eu falei que o que ela conseguisse escrever eu compraria, que ela podia caprichar nos pedidos!

Ela escreveu todas as frutas que ama, morango, uva, laranja, banana, maçã, cereja, e a Clara, sempre ligeira, logo sugeriu que ela escrevesse “QUINDER OVO”. Essa foi a forma que ela escreveu, com alguma ajuda minha.

Fiquei feliz, falei que compraria com gosto tudo o que ela pediu.

Passaram-se 2 dias, não tinha ido ao supermercado e como já estava no fim do mês, falei: “filha, esqueci a lista em casa e estou sem dinheiro. Vc escreve de novo só o essencial pra eu comprar as frutas do lanche?!”

Com isso, ficou mais uma lição: “Nem sempre temos condições e nem sempre acontece quando queremos. Eu prometi e vou cumprir, mas preciso de uns dias!”

Pronto, mais umas palavras escritas, inclusive Brócolis (mais uma vez com alguma ajuda minha).

A Clara passou a semana perguntando se eu não compraria a lista da Bru, e depois de uns dias finalmente comprei o que faltava.

A primeira Leitura espontânea

Estávamos em São Paulo outro dia, em trânsito, e de repente ela fala: “Mamãe, o que é LAVO SOFÁ”?

Juro, minha vontade era parar o carro e encher ela de beijos, de abraços, gravar e registrar. Não deu. Mas ficou na minha memória. Gritei, dei parabéns, mostrei minha satisfação em vê-la lendo e em seguida vieram outras palavras e letreiros de lojas.

Durante a semana, mais algumas placas lidas de surpresa. O Caminhão de Gelo Diamante na nossa frente, o outdoor escrito “Aqui”, “auto-elétrica” e as placas de sinalização de trânsito.

Meu coração foi enchendo de esperança de que ela finalmente tinha desabrochado. Outras mães de amigas já tinham falado: “Aninha, aconteceu de repente aqui em casa.” E aconteceu.

Próximos Passos

Obviamente não posso ficar na zona de conforto. Evitamos comparações mas impossível não reparar na escrita de uma amiga dela, uma sentença completa. Ela tem uma irmã mais velha, o que ajuda, mas mesmo assim está alguns passos à frente.

Ela não está no nível que poderia, mas esta evoluindo e é isso que importa. Ela sempre esteve abaixo da curva de peso e continuava crescendo, então vou levar pra esse lado: se está evoluindo no ritmo dela, estamos no caminho certo.

Cada um se destaca em algo, e os desenhos dela também me enchem de orgulho, a memória dela é espetacular e tenho certeza que essa “dificuldade” é só um dos vários obstáculos que enfrentaremos. Ela na preguiça de aprender e no excesso de vontade de conversar com as amigas.

Para quem vive a mesma situação, tenta avaliar de fora o que dá pra melhorar. Pensa se você estivesse em uma psicóloga com a sua filha, onde ela apontaria os erros (que geralmente estão na família e não na criança)? Falta de presença? Excesso de televisão? Falta de jogos, onde ela vai perder e ter que lidar com isso?

O que você pode fazer para melhorar, o que fazer de diferente? Quais as necessidades dela? Quais as suas? Que esportes desenvolvem o lado que ela precisa mais trabalhar?

Não é fácil, mas precisamos sempre aprender e tentar realizar melhor nossa principal tarefa de ser mãe.

Sobre Aninha

Mãe de um trio de meninas: Bruna (6), Clara (4) e Alice (2). Dedico meu tempo à minha família e ao LookBebê. Antenada, adoro redes sociais e tecnologia e mais ainda, compartilhar conhecimento e informações sobre a maternidade.
Sou (fui) Biomédica, pós-graduada em Engenharia Biomédica, mas optei por mergulhar de cabeça na maternidade.