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As alergias alimentares mais comuns em bebês e crianças menores de 3 anos são a ovo, leite, soja e trigo, sendo que a alergia ao ovo tem maior incidência até mesmo que a famosa APLV (alergia a proteína do leite de vaca).

A Alergia alimentar é uma reação do sistema imune que identifica por engano, a proteína do alimento como perigosa. Dessa forma, os anticorpos a reconhecem e sinalizam para o sistema imunológico para liberar histamina e outras químicas que causam sinais e sintomas alérgicos.

Bebês diagnosticados com alergia alimentar tem grandes chances de se tornarem tolerantes. O único tratamento é a exclusão total do alérgeno da rotina alimentar. Algumas pessoas tem essa “cura” em dois ou três anos, outros levam mais tempo, e alguns tem alergia por toda a vida. Vai depender muito de cada organismo, da exposição e do alérgeno em questão.

Investigação e opinião médica

Apesar de ter conversado com as duas pediatras (em Campinas e em São Paulo), eu quis procurar o alergista para buscar orientação quanto aos cuidados com a Alice.

Como eu imaginava, ele foi bastante cauteloso e prefere pecar pelo exagero. Se tratando de saúde e de uma possível “cura” de dessa alergia, decidimos tomar todos os cuidados. E o melhor é que posso compartilhar informações valiosas aqui.

Uma coisa que eu aprendi nesse pouco tempo de alergia é que não existe frescura. Cada pessoa reage de uma forma, e o que pra mim pode parecer “pecar pelo exagero” para outras crianças é extremamente necessário pois sofrem reação com o mínimo contato com traços da substância (como por exemplo ter reação por estar no mesmo ambiente onde estão preparando um bife a milanesa).

Causa da alergia alimentar – A exposição precoce

Assim que terminei de escrever o post sobre A descoberta da alergia alimentar da Alice (a ovo) antes mesmo da introdução da alimentação sólida, lembrei que a expus à clara de ovo de uma forma bastante “agressiva”. Com uns 15 dias ela teve uma assadura horrível e nada resolvia. Foi piorando e ficou toda vermelha. Foi aí que a pediatra sugeriu usar clara de ovo (comum em queimaduras de adultos), pois era o que faziam quando não tinha outra solução. E eu passei clara no bumbum dela por uns 2 ou 3 dias (ela tinha uns 20 e poucos dias).

Assim que lembrei do episódio e falei com a pediatra, ela disse que fazia todo sentido e que iria suspender essa orientação que era até comum em UTIs. Já comentei aqui no blog que a exposição do bebê prematuro em UTI ao leite artificial muitas vezes desencadeia a APLV, e a situação é a mesma: exposição precoce a uma proteína altamente alergênica. Isso não é regra, uma vez que cada indivíduo reage de uma forma, porém, pode ser crucial para um bebe com predisposição genética a ter alergia.

Apesar de o médico alergista afirmar que ela poderia, independente desse contato, ter essa mesma alergia, eu acredito que tenha sido desencadeada por essa exposição. Ele ainda afirma que o ideal seria que as mães evitassem excessos de alérgenos na alimentação no pós-parto, para que diminua a exposição do bebê ao alérgeno através do leite materno, mas estudos (como esse) dizem que ainda não há dados suficientes para essa recomendação. Isso não quer dizer que a mãe que amamenta não deveria tomar leite e derivados, nem ovo, nem oleaginosas, por favor! Só deve haver uma preocupação em não expor excessivamente o bebê a esses alimentos antes da hora. (Eu estava comendo alimentos com ovo diariamente mesmo após a descoberta, pois não haviam me orientado a evitar!)

Resultados dos exames de sangue

Fizemos exames de sangue na Alice (RAST para IgE específico) para leite, ovo, trigo, soja, frutos do mar (além de outros alérgenos não alimentares como pelo de gato, pelo de cão, poeira domestica) e a única alergia dela é à clara de ovo, mais precisamente a proteína ovoalbumina. Como não é possível separar totalmente a clara da gema e impedir traços do alimento e contaminação cruzada, foi recomendado que seja feita a exclusão de ovos e derivados da alimentação.

O resultado do exame dela foi melhor do que eu esperava. Como a reação foi bastante forte só de encostar a minha mão suja de clara de ovo na pele dela, imaginei que o valor fosse dar mais alto. O resultado foi “Moderado”, ou de Classe 2 (1,79KU/L).

alergia ovo rast phadia ovoalbumina

Com esse resultado e o diagnóstico precoce, o médico disse que vê um bom prognóstico e que com a exclusão total do ovo na dieta dela, ele acredita que ela ficará tolerante ao ovo em até de 2 anos.

Reação X resultados

Considerando que existe até Classe 6 e resultados acima de 100, imaginei que isso indicaria que ela não teria reações fortes, mas o médico explicou que a reação não é linear, ou seja, não é porque o valor é baixo que ela não possa ter um edema de glote por exemplo.

Isso acaba confirmando o que a Dani, uma seguidora com filho alérgico comentou aqui no outro post. Ela disse que “A reação cutânea exige bastante cuidado mesmo, é uma reação medida por IgE, manifesta-se quase imediatamente e é muito próxima ao inchaço de glote.”reação contato alergia a ovo bebe criança

Quando a exposição não é grande, as manifestações podem acontecer de outra forma (gastrointestinal, comportamental e respiratória).

Quais tipos de reação podem acontecer em uma alergia alimentar?

Encontrei duas tabelas sobre as reações alérgicas por alimentos de um estudo de Gregory M Metz e A Wesley Burks, traduzido que pode ser lido na íntegra aqui.
As reações podem ser: cutâneas, respiratórias, naso-oculares, gastrintestinais, circulatórias e multissistêmicas. As gastrintestinais aparecem principalmente durante o período de lactância e infância.

alergia alimentar reações
hipersensibilidade gastrointestinal imediata alergia alimentar

Ovo em preparo de bolo e ovo cru tem diferença?

O ovo possui duas principais proteínas: Ovoalbumina e ovomucóide. A ovomucóide  é termoestável, ou seja, não se quebra quando exposta a altas temperaturas. Dessa forma, quanto mais vezes a criança for exposta, mais difícil que a alergia desapareça com o tempo, o que é bastante comum de acontecer.
Já a Ovoalbumina é uma proteína que se quebra quando exposta a altas temperaturas (baked, assados). Sabendo que a qual proteína a criança reage, é sim possível oferecer uma dieta sem exclusão total. Essa orientação e recomendação deve vir do médico responsável de acordo com o quadro clínico de cada paciente e fazendo o devido acompanhamento.

As reações também variam conforme o tipo de exposição e quantidade do alérgeno.

Mas ela tinha algum sintoma? Ela apresenta algum sintoma quando eu (mãe) como ovo? 

Algumas pessoas devem se lembrar que eu comentei que ela regurgitava bastante.  Uma delas me perguntou se não era refluxo mas a pediatra me disse que era considerado aceitável. Se ela ficava bem, não teria porque medicar ou fazer exames. Pois então! Tinha dias que ela regurgitava em toda mamada. Fazia “queijinho”. Em outras épocas nada acontecia.

Depois da exclusão total, comi 2x alimentos com ovo e ela voltou a apresentar o mesmo comportamento de antes. Regurgitou aquele “queijinho”, ou seja, ela tem reação gastrintestinal quando eu como ovo e ela recebe através do leite materno. A exclusão do ovo da minha dieta é muito mais fácil do que parece. Aprendi a comprar massas de sêmola de trigo, ver nos rótulos dos pães quais não contem ovo, ficar de olho nos ingredientes dos produtos prontos.

Quando as reações aparecem até mesmo com traços de ovo, precisa ficar ainda mais atento e confirmar informações no SAC. Também tem grupos de mães de alérgicos que compartilham muitas informações sobre marcas que tem traços de ovos ou não, por exemplo no fermento em pó.

Precauções e orientações para bebês alérgicos:
Constatada a alergia alimentar e a necessidade de exclusão, as orientações foram:

  • Comprar bucha, escova, copos, talheres, pratos, panos de prato novos e separados para ela.
  • Excluir ovos e derivados da minha alimentação (mãe), para que ela não receba a proteína através do leite materno (segunda opinião médica: somente enquanto eu notava reação)
  • Não comprar mais ovos para evitar contaminação cruzada em casa.
  • Ler todos os rótulos de produtos antes de consumir e utilizar. Alimentos e cosméticos. Consumir produtos de grandes marcas pois tem um maior controle sobre a produção e traços do ovo. Ligar no SAC das empresas pra confirmar caso haja dúvida. Evitar produções artesanais pelo risco da contaminação cruzada.
  • Orientar as crianças a não oferecer nada à Alice (principalmente quando crescer um pouco mais). Elas não tem conhecimento para saber que um sanduíche pode haver maionese (tem ovos) ou que um suspiro tem ovos.
  • Quando for comer fora de casa, levar a comida dela.
  • Não colocá-la na escola por 2 anos.
Vacinas

Três tipos de vacinas são inoculadas em embrião de galinha e cada uma tem uma orientação:

  • tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) – a quantidade de proteína presente na vacina da tríplice é mínima e pode ser oferecida à criança em segurança, observando sintomas.
  • gripe (influenza, h1n1) – Depende do grau de reação e necessidade da vacina
    vacina alergia ovo gripe
    Fonte: Asma, Alergia e Imunodeficiências: Guia de Imunização SBIm/ASBIA 2015-2016

     

  • febre amarela – totalmente contraindicada a pacientes com alergia do ovo

Aqui fomos orientadas somente a dar a da Tríplice Viral.

Epinefrina? Casos de alergia severa

Como as reações (sintomas) não são diretamente proporcionais ao resultado do exame (Classe 2) e ela apresentou uma reação de pele forte e imediata, o alergista manteve a orientação de que eu deveria ter uma caneta de epinefrina para andar comigo onde ela fosse.

Alérgicos com reações severas geralmente tem que portar um aplicador auto-injetável de epinefrina (a forma sintética da adrenalina). Essa droga deve ser utilizada com cautela e somente em casos de choque anafilático após prescrição médica. Ela reverte o quadro pois provoca uma vasoconstrição, reduzindo o inchaço dos brônquios e outras vias para facilitar a respiração. Em contrapartida aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial, e por isso existe o controle e a necessidade da prescrição e acompanhamento médico.

***

Como falei no início no post, esse primeiro médico não é de falar muito. Ele não explicou detalhes da caneta e nem falou na primeira consulta sobre a dificuldade de adquirir uma (somente com importadoras de medicamentos).

Uma amiga nos EUA pagou 240 dólares na epi-pen com desconto com convênio médico dela. Outra achou pra mim em Madrid por 53 euros (uma marca similar). Para importar regularmente aqui no Brasil recebi orçamentos de 3 a 6 mil reais, mas na clínica da Dra Ariana eles indicam onde comprar por 1mil. De qualquer uma dessas formas é necessário um pedido médico. Uma leitora me disse que pela dificuldade em utilizar o aplicador (requer prática e força), ela anda com um kit com seringa e dosagem exata a ser utilizada, mas depende da indicação médica.

Após a publicação desse post consultei com a Dra Ariana Yang, e corrigi algumas informações. Ela me explicou sobre o uso da caneta e estamos fazendo o acompanhamento. Veja aqui o tratamento que vamos começar.

Espero que tenha ajudado! Bjoss

Pesquisas: Alergias alimentares | Phadia | AlergoHouse | ASBAI | Mayo Clinic

Médicos consultados:

Dra Carla Sampaio (pediatra-SP)

Dra Maria Otilia Bianchi (ped – Campinas)

Dr Antonio Condino Neto (alergista – Campinas)

Dra Ariana Yang (segunda opinião – alergista – Campinas) especialista em alergia alimentar

Imagem: modificada de Ovos em Shutterstock

Sobre Aninha

Mãe de um trio de meninas: Bruna (5), Clara (3) e Alice (1). Dedico meu tempo à minha família e ao LookBebê. Antenada, adoro redes sociais e tecnologia e mais ainda, compartilhar conhecimento e informações sobre a maternidade. Sou (fui) Biomédica, pós-graduada em Engenharia Biomédica, mas optei por mergulhar de cabeça na maternidade.