13 comments

Na minha primeira gravidez soube que não se furava mais orelha de bebê na maternidade. Não na maioria. É desnecessário e perigoso furar e expor o bebê em ambiente hospitalar. Então com poucos dias chamamos em casa uma enfermeira experiente que conhecemos no maternidade e com poucos dias a Bruna teve suas orelhas furadas.

A pediatra recomendava que esperasse pelo menos um mês, mas perguntamos depois de ter feito. Naquela época eu ainda acreditava na lenda de que “quando ainda é bebê não dói” ou “quanto mais cedo melhor”.

Na segunda, a da Clara, demorei uns dias a mais, mas também furei sem pensar muito. Simplesmente porque meninas furam e ficam bonitinhas de brinco. Foi mais ou menos com 1 mês.

Quando a Alice nasceu, as coisas já eram diferentes. Durante a gravidez me preparei para um parto humanizado, sem procedimentos desnecessários, sem submete-lá a protocolos hospitalares, colírios ardidos e injeções nas primeiras horas de vida.

Seguindo essa lógica, eu deveria poupá-la de qualquer intervenção, certo? Colocar brincos é a mais fútil delas. Foi em um grupo das amigas “índias”, como nos chamamos carinhosamente (mas com fortes influencias feministas), que o assunto veio à tona e me fez refletir. 

O furo na orelha é cultural. Em alguns países da Europa não se fura orelha de bebê. Lá as meninas furam depois de anos, as vezes somente na vida adulta. Ou nunca. Nos EUA também não recomendam furar com alguns meses. Na Suécia, Alemanha, Portugal, Inglaterra o furo na orelha é visto como algo cruel e violento! E é mesmo. (Não necessariamente no país todo. Como é cultural, isso varia muito).

Não sei se centenas de anos atrás  sofremos influencia de índios ou de latinos mas a verdade é que é um costume adquirido por nós e não está presente no restante do mundo desde recém-nascido. Não como está aqui. É uma violência no corpo de alguém que não tem poder de voz e não tem chance de escolher, feito por questões estéticas e para estereotipar o gênero. Pra que? Por que? Por isso é uma das questões nas quais as feministas são contra. Não podemos decidir pelo corpo de outra pessoa. “Meu corpo minhas regras, o corpo dela, as regras dela.”

Você furaria a sobrancelha ou o nariz do sei filho? Não, né? Ali também só tem pele e cartilagem, é molinho! Pois é. O furo das orelhas é cultural, estético e machista (do ponto de vista que a mulher ‘precisa’ estar feminina), precisamos concordar.

Logo que a Alice nasceu meu marido correu no shopping para comprar um par de brincos, já que os das meninas foram se perdendo ao longo desses anos e não tinha nenhum pequenininho. Ele achava lindo, queria “enfeitar” a filha e oferecer as mesmas coisas que as irmãs tiveram.

Eu não estava confortável em furar, mas entendia a vontade dele de deixar a pequena com brinquinhos assim como as irmãs. Falei pra ele que não furaria nos primeiros dias e que estava bastante inclinada a não furar por um tempo. No início ele achou exagero e radicalismo, mas conversamos e expliquei sobre a minha posição. Falei que furaríamos sim, mas depois de um tempo e depois das vacinas. O que eu pudesse fazer pra retardar isso, eu faria. Como eu nunca me posicionei quanto a isso publicamente e sempre achei normal o furo da orelha e uso dos brincos, ganhei mais 2 pares, do meu pai e minha tia. E eles nos presentearam com a melhor das intenções. Expliquei que um dia o furo seria feito sim, mas que seria depois das primeiras vacinas.

A cobrança vinha de todos os lados. Quando a viam no supermercado ou na escola da Bruna, vinha a pergunta: é menino ou menina? Também escutei: “ahhh ta, não tinha brinquinho então não sabia!”. Sem problemas. Podiam perguntar o quanto quisessem que eu não iria me incomodar e nem colocar antes por isso.

Quando escutei de uma pessoa muito próxima que “as pessoas” iriam achar que era menino fiquei bem brava e aí que tive vontade de não furar mesmo! Falei que depois daquela afirmação iria adiar mais ainda o furo e se repetisse, mais ainda, pois eu não iria fazer para os outros e nem para distinguirem na rua se ela era menina ou menino. Depois de mais uns 2 meses sem nenhuma cobrança de familiares pela estética dela e depois das vacinas, falei pro meu marido que poderíamos furar. Ele ficou todo feliz, mas era véspera da viagem para a praia e achamos melhor esperar para não correr risco de infecção por causa de mar, piscina, areia, filtro solar.

O dia chegou e fiz questão que ele entrasse. Claro que o bonitão queria que eu a levasse e ele nem visse o furo. A verdade é que dói sim. E no caso da Alice acho que doeu mais do que das irmãs. Acredito que a mão do profissional, assim como cada indivíduo, é de um jeito. Alguns profissionais vão falar que a criança chora porque você a segura firme ou porque está assustada, mas não é isso. Algumas pessoas vão falar: “ahhh, minha bebê nem chorou”, “Chorou só na hora e passou”. Sim, doeu na hora e pode incomodar  muito pra dormir, além de ter sido sem consentimento.

Alguns profissionais usam gelo e pomada anestésica para deixar um pouco menos sensível (inclusive acho que isso fez diferença no furo das meninas com a enfermeira de SP), mas dói sim. Alguns defendem que o ponto deve ser marcado por um acupunturista, outros acupunturistas dizem que não tem necessidade pois o ponto “migra” no lóbulo.

O unico método aprovado pela ANVISA é com um aplicador descartável que vem com o brinco estéril e não tem contato com a mão de ninguém. Nos locais que liguei eles fazem com esse aplicador a partir de 1 mês.

Algumas pessoas defendem que é melhor furar com o próprio brinco de ouro depois de limpar com álcool 70%.  Existem muitas verdades e muitas opiniões. Fizemos como com as outras 2: com enfermeira e o próprio brinco de ouro. Fiz um post sobre o furo da Bruna aqui antes e pareceu menos traumático e dolorido.

Pensei em não postar uma foto dela sentindo dor pra não expor e saírem postando por ai sobre essa mãe bruxa má. Posso dizer que entre todas as “picadas”, foi a que mais me doeu, o que mais me incomodou, um dos furos que ela mais chorou e o que tirou meu humor e palavras por um tempo. Meu marido me fazia perguntas sobre o que eu estava sentindo, se estava arrependida, o que estava acontecendo enquanto eu saía de lá muda e pensativa. Eu me sentia culpada e sabia que a tinha violentado. Pela primeira vez de todas as filhas me senti mal pois dessa vez não foi no automático e não foi pelo bem dela (como nas vacinas). Saber que o furo foi estético e proposital, por opção minha e do meu marido foi meio trash e de tirar o fôlego. Mas se eu não publico a foto do choro, eu continuo só contribuindo com a foto “da menininha lindinha de brinquinhos” e não é tão simples. Temos que pensar nisso.

furo orelinha


E por isso pode ter certeza que eu nunca vou questionar ninguém sobre colocar ou não brincos e induzir a isso, mas gostaria com esse post, apesar de ter feito, de levar outras pessoas a refletirem sobre o furo na orelha. Saiam do automático.

Depois de algumas horas eu vou mentir que não estou achando bonitinha? Não vou, mas que dói, dói. furo orelhinha

Ah! Antes que seja tarde: Se mesmo assim você optar por fazer os furos, os brincos “para bebê” devem ser arredondados e sem ponta atrás, com tarraxa fechada e pequena. Sem dúvida incomoda bem menos. (todos os brincos das meninas foram assim, mas já vi bebes com brinco normal)brinco bebe menina furo orelhinha

Existe um movimento mundial contra o uso de pistolas de piercing com indícios de que aumentam o risco de infecção e trauma na orelha, mas isso não quer dizer que o furo com os brincos de ouro está OK fazer. Continua sendo uma violência. 

Furar-orelhas

Mas que fica bonitinha, fica né? 🙂

Bjs.

Sobre Aninha

Mãe de um trio de meninas: Bruna (6), Clara (4) e Alice (2). Dedico meu tempo à minha família e ao LookBebê. Antenada, adoro redes sociais e tecnologia e mais ainda, compartilhar conhecimento e informações sobre a maternidade.
Sou (fui) Biomédica, pós-graduada em Engenharia Biomédica, mas optei por mergulhar de cabeça na maternidade.