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Estar presente na educação dos filhos implica envolvimento, comprometimento e colaboração, bem como a percepção das dificuldades emocionais, cognitivas e comportamentais. A família, como sede da socialização e primeira instituição social com a qual a criança tem contato, assume um espaço onde os valores e as normas sociais são transmitidas às gerações sucessoras. A noção de limites, o respeito e a capacidade de se colocar no lugar do outro se estabelece na relação pais e filhos.

Hoje é possível observar famílias desorganizadas e com diversos conflitos: ausência, negligência, agressão verbal — e até mesmo física — e falta de responsabilidade e tolerância com os filhos. Consequentemente, instaurou-se uma mudança significativa na posição dos pais quanto à colocação de limites e regras. Antigamente, a maneira de educar seguia uma direção vertical: os pais exerciam autoridade sem muitos questionamentos. Posteriormente, aquela geração — influenciada pelo autoritarismo —, ao assumir o lugar de pais, passou a atuar de modo contrário: a ausência de regras, limites e o “não” passaram a ser vistos como causadores de traumas.

A entrada da mulher no mercado de trabalho gerou, concomitantemente, uma mudança na família: o cuidado dos filhos passou a ser realizado por babás, avós ou inseridos em uma instituição educacional desde muito pequenos. Foi delegada a outra pessoa – que não a mãe ou o pai – a educação dos filhos.

Em minha prática clínica é perceptível que os pais, que se enquadram neste “perfil”, desenvolvem um sentimento de culpa pela ausência diária, deixando de exercer a autoridade e impor limites, resultando em uma permissividade maior na tentativa de preencher a ausência e/ou compensar.

A mãe/mulher contemporânea não tem tempo para se permitir descansar, pensar no seu papel dentro da família, ouvir seu corpo, embalar seus filhos pacientemente, olhar a lua, cavar a terra e esperar brotar os frutos. Ela precisa correr, ganhar dinheiro, adquirir mais diplomas que lhe permitam superar seus adversários na corrida por vagas e salários; ela precisa dar conta de todas as tarefas que assumiu para provar que é capaz de fazer tudo – Mulher Maravilha Mode On.

Não é raro a mãe/mulher encontrar dificuldades em estabelecer a divisão de responsabilidade na família. O excesso de atribuições e responsabilidades é uma forma de se sentir útil e importante como mulher, embora custe o alto preço da insatisfação, resignação e lamento. Isso por não se permitir manifestar fraqueza. Esse sentimento parece estar relacionado ao seu papel desempenhado na família, pois para ela é “normal” renunciar aos seus anseios e seu desenvolvimento em nome da família; a necessidade de renunciar a si mesma.

Somado a isso, assumir a responsabilidade pela educação dos filhos é tomar consciência da necessidade de estar mais presente, dar mais atenção a eles e saber quais papéis precisam ser desempenhados na família – dividir tarefas e ter uma linguagem em comum com aqueles que cuidam também da criança. É repensar as relações humanas, as pessoas que a constituem, ver os limites não como um elemento punitivo, mas como uma condição afirmativa e civilizadora, de proteção e que nos insere na sociedade.

Difícil? Sim, e muito, mas é preciso. #EuDigoNaoSemTrauma

Dizer não aos filhos é dar limites antes de tudo a si mesmo, no sentido de saber delimitar o seu próprio papel na vida de uma criança.

Ser mãe/mulher nos tempos atuais é se reinventar constantemente no meio de um turbilhão de emoções, demandas, inconstâncias, erros, acertos, paciência e muitas concessões. Não existe receita de melhor mãe do mundo, longe disso. Fazemos o que podemos dentro dos nossos próprios limites. Compartilhar nossas experiências e dificuldades nos autoriza a errar mais vezes na tentativa de acertar e saber que estamos passando ou já passamos pelo mesmo problema. Não é a toa que as redes sociais, bem como o LookBebê, se tornaram um espaço de desabafo e acalento para todas as mães/mulheres que buscam dar o melhor de si sempre.

Essa tentativa frustrada de ser multi-mulher, mãe/trabalhadora/dona de casa se agrava porque muitos pais ainda não conseguiram se encaixar nesse modelo de família no qual todos dividem tarefas e responsabilidades. O homem que viu em sua casa sua mãe responsável pela comida, louça, roupas e educação dos filhos, enquanto o pai lia o jornal na sala e colocava dinheiro em casa, não sabe ainda assumir seu papel de educador e adulto, tão responsável quanto a mulher pelo bom andamento da rotina do lar. Eles geralmente não se sentem empoderados para essas funções e quando as fazem, são enaltecidos e agradecidos pela “ajuda” quando na verdade deveria ser parte de suas atribuições. Pai e Mãe precisam ser parceiros em casa e na educação de seus filhos.

Para finalizar o post, convido a responder a seguinte pergunta:

Quando eu cedo às vontades/caprichos de meu filho/minha filha é porque…

a) Fiquei o dia inteiro fora de casa e não acho justo negar coisas a ele/ela e ser a chata
b) Estou cansada e sem saco e não quero ouvir grito, choro ou insistência
c) Meu companheiro ou parente/cuidador me desautoriza
d) Tenho receio de traumatizar meu filho/minha filha
e) Quero dar a meu filho/minha filha o que não tive
f)  Outro. Qual?

Imagem: Mãe mulher em Shutterstock

Sobre Lilian Britto

Graduada em Psicologia pela Universidade Salvador – UNIFACS e pós-graduada em Psicologia Analítica pela Psiquê - Centro de Estudos C. G. Jung, atua como psicóloga clínica com crianças e adolescentes. Além de coordenadora de cursos da Clínica Psiquê, presta trabalho voluntário na Fundação Lar Harmonia junto a crianças carentes. Apesar de ainda não ser mamãe, é apaixonada por crianças e, por isso, dedicou e dedica a sua formação profissional nesse fantástico mundo infantil.