A maioria das pessoas já sabe que parto humanizado não é sinônimo de parto na água ou parto em casa (embora eu possa afirmar que essa foi a combinação perfeita pra mim, mas não é para todas). O parto humanizado pode acontecer na água e pode sim ser em casa em casos de gravidez de risco habitual e bem assistido, mas pode ser também no hospital e deve acontecer na posição que a gestante se sentir melhor.

Para um parto humanizado são necessárias 3 coisas:

  • Deixar a gestante à vontade (no local e na posição que preferir) e bem informada
  • Ter uma equipe preparada para monitorar, apoiar e intervir somente se necessário
  • Ter uma assistência baseada em evidencias

Acessórios como bola, banqueta, rebozo, óleos essenciais, chuveiro, banheira, são muito bem-vindos (e ajudam demais!) mas não são fundamentais para se ter um atendimento respeitoso e ser a protagonista do seu parto. É necessária muita informação, tanto por parte da gestante como da equipe que acompanha. A analgesia de parto deve estar disponível e ser feita com cautela (para não tirar os movimentos da gestante)  quando for solicitada pela mesma.

O Parto Humanizado é o parto onde a gestante tem autonomia sobre o seu corpo, está bem informada e segue seus instintos. E porque as doulas são importantes nesse processo?

As doulas dão apoio físico e emocional à gestante e em nenhum momento substituem a equipe médica ou de enfermagem, pois não tem conhecimento técnico. A presença das doulas tem um impacto muito positivo sobre os números de intervenções e no tempo de trabalho de parto. Vejam abaixo:

beneficios doula redução taxas
Fonte: Livre Maternagem

Parto humanizado = parto com respeito. Respeito à mãe, ao bebê e à primeira hora de vida.

A saúde do bebê 

A primeira hora de vida é chamada “Hora de Ouro” (Golden Hour). É conhecida na enfermagem por ser fundamental após um “trauma”. Após o nascimento, nessa primeira hora de vida é importante estabelecer o contato pele-a-pele. Mãe e bebê precisam se sentir e se conhecer. Esse contato ajuda a estabilizar a temperatura corporal, batimentos cardíacos e respiração e ajuda a estimular a liberação de ocitocina que promove a ejeção do leite e contração uterina.

Poucos são os casos em que a mulher não pode entrar em trabalho de parto, e para isso a cesárea é a forma mais segura de trazer o bebê ao mundo preservando a saúde da mãe. Do contrário, o ideal é que se inicie o trabalho de parto para assegurar que o bebê está pronto para vir ao mundo.

Você sabia que mesmo na cesárea (estando tudo bem, claro) o médico pode esperar alguns minutos para cortar o cordão? São só 3 minutinhos pra garantir mais 100mL de sangue pro bebê.

3 minutos cordao

Ativistas do parto não gostam que se fale em cesárea humanizada porque a cesárea é uma cirurgia que oferece mais riscos à mãe e bebê e não deve ser feita sem real necessidade (além de ser um procedimento onde a mulher não tem autonomia sobre o próprio corpo), porém algumas pessoas precisam sim de cesárea (e ela salva vidas quando bem ‘aplicada’) e ela precisa ser mais humana. Aliás, todos os nascimentos precisam.

Existem cesarianas onde o tempo da mãe e do bebê são respeitados? Sim, existem. Principalmente quando esses nascimentos acontecem durante trabalho de parto e com equipe que entende de verdade o que é a humanização do parto e respeito ao nascimento. Nessa situação muitas equipes médicas permitem que o braço da mãe fique desamarrado e que ela tenha contato com o bebê assim que nasce, por baixo dos panos do campo cirúrgico.

Procedimentos e protocolos

O que mais me incomoda nos partos hospitalares é a frieza com que muitos profissionais tratam o nascimento. É muito técnico. Por isso muitas vezes o parto em casa de parto e o domiciliar é muito mais agradável e “humanizado”, porque ali a prioridade é o bem estar da mãe e do bebê, e não os protocolos hospitalares, a liberação da equipe ou limpeza da sala para o próximo nascimento. Para muitos deles, é só mais um. Quantos bebês são recebidos pelas enfermeiras em um único dia, não é? Mas para aquele casal, é o nascimento de UM FILHO. Para aquele bebê, é o momento que ele vai sair da barriga e conhecer a mãe. E notem: não está em questão aqui a via de parto! O atendimento hospitalar costuma ser muito cheio de protocolos, mesmo em partos normais (e dependendo do lugar de atendimento e do profissional que atende, o parto normal ainda é mais duro pois mulheres são humilhadas, maltratadas e condicionadas a ficarem sem o acompanhante, direito esse garantido por lei).

Estando tudo bem: Qual a necessidade de tirar o bebê e esfregá-lo? E qual a necessidade de cortar o cordão imediatamente? Qual a necessidade de tirar o bebê da mãe e pesá-lo, medi-lo, carimbar seus pés antes mesmo de sentir o cheiro da mãe? Qual a necessidade de sair sugando nariz e boca? E de pingar o colírio que previne infecções através da contaminação de mães com gonorréia (em todos os bebês)? E de separar bebê e mãe nas duas primeiras horas de vida para dar banho e deixar em observação?

O parto humanizado é o parto onde são respeitados gestante e bebê e onde a mulher (devidamente empoderada) rege seu corpo.  É necessária uma assistência com carinho, palavras doces e respeito ao tempo dos dois, enquanto estiver seguro para ambos, evitando intervenções e protocolos desnecessários.

Então se você, médico(a) obstetra, enfermeira, técnica, auxiliar, pediatra neonatal, ou qualquer profissional envolvido nesse atendimento, quiser promover um parto  e nascimento humanizado, primeiro pesquise sobre a necessidade dos procedimentos que são praticados e a ordem em que tudo deve acontecer. Promova o contato pele-a-pele e incentive a amamentação na primeira hora de vida.

Um ano após resolução da ANS, as taxas de parto normal começaram a subir e o número de bebês recém-nascidos internados na UTI a cair, conforme noticiado aqui, porém histórias de violência obstétrica, desrespeito ou falta de estrutura hospitalar ainda são comuns principalmente na rede pública. (Vejam relatos na Época, no Reclame aqui ou o mais recente no G1). A caminhada ainda é longa pois a saúde no Brasil deixa muito a desejar, mas seguiremos em frente tentando mudar essa triste realidade. Que a estrutura melhore, os profissionais sejam atualizados e que as doulas possam em breve entrar em todas as maternidades do país.

Links Externos para quem quer se atualizar:

e também:

  • O Renascimento do Parto (Filme / facebook)
  • Siaparto – Simpósio Internacional de Assistência ao parto (site)
  • Primeira Hora de Vida – Padecendo (post)
  • Rede de Grupos de Apoio à Maternidade ativa e Parto (site)
  • Estuda, Melania, Estuda! (site)

Contei sobre as minhas 3 experiências de parto AQUI

bjs

Sobre Aninha

Mãe de um trio de meninas: Bruna (6), Clara (4) e Alice (2). Dedico meu tempo à minha família e ao LookBebê. Antenada, adoro redes sociais e tecnologia e mais ainda, compartilhar conhecimento e informações sobre a maternidade. Sou (fui) Biomédica, pós-graduada em Engenharia Biomédica, mas optei por mergulhar de cabeça na maternidade.